Igreja Católica cresce em todos os continentes, especialmente na África

Publicada em 

3 de abril de 2025

às

11h38

A Igreja Católica avança fora da Europa e seu novo impulso vem da combinação entre fé, juventude e crescimento demográfico africano.

No último biênio, o catolicismo cresceu em todos os continentes do mundo. Você não leu errado. Ao contrário do que se espera quando pensamos exclusivamente no Brasil, onde o número de católicos tem diminuído, a Igreja Católica , considerada em escala global, está se saindo muito bem no século 21. A novidade é que a igreja do novo milênio é cada vez mais africana, e menos europeia.

Há menos de duas semanas, a agência de notícias oficial do Vaticano divulgou o “Annuario Pontificio 2025″ e o ” divulgou o “Annuario Pontificio 2025” e o “Annuarium Statisticum Ecclesiae 2023”, livros elaborados pelo Escritório Central de Estatística da Igreja. Passei dias debruçado sobre os dados. Eles confirmam: o eixo do catolicismo mundial está se deslocando rumo ao chamado Sul Global.

Vamos aos números, entre 2022 e 2023, o catolicismo cresceu em diferentes ritmos ao redor do mundo. A África foi o continente com o maior aumento proporcional: a população católica cresceu 3,31% em apenas um ano, um acréscimo de quase 9 milhões de novos fiéis. Para fins de comparação, no Brasil, o número de evangélicos cresce em média apenas 1% anualmente. Ou seja, o catolicismo cresce na África mais do que os evangélicos crescem no Brasil. Além disso, o continente africano já concentra 20% dos católicos globais, proporção praticamente igual à europeia.

Na Europa, apesar da atenção acadêmica e política ao processo de fechamento de igrejas, o número de católicos permaneceu praticamente estável, ainda assim cresceu 0,2%. Países como Itália, Polônia e Espanha ainda têm mais de 90% da população autodeclarada católica.

Na àsia, o crescimento foi moderado (+0,6%), e o continente concentra atualmente cerca de 11% dos católicos do planeta. Filipinas (93 milhões de fiéis) e Índia (23 milhões) já estão entre os dez países com maior número absoluto de católicos no mundo.

Já as Américas continuam sendo o continente com mais católicos em números absolutos, reunindo 48% da população católica global, distribuída do Canadá à Argentina. O catolicismo manteve o crescimento de 1% ao ano no continente, similar aos anos anteriores. O Brasil segue como o país das Américas com maior número absoluto de católicos, correspondendo sozinho a aproximadamente 13% do total global. Em proporção às suas respectivas populações, Argentina, Colômbia e Paraguai permanecem com mais de 90% de habitantes declaradamente católicos.

Quando associamos os dados relativos ao número de fiéis à quantidade de sacerdotes, fica ainda mais explícito o deslocamento da importância do catolicismo em direção a duas regiões do mundo: África e Ásia. Nesses dois continentes, além do crescimento de católicos, houve crescimento significativo no número de padres.

Sobretudo no caso africano, a combinação de três fatores —número absoluto de fiéis, ritmo acelerado do crescimento dos católicos e aumento expressivo de sacerdotes— permite-nos afirmar que o catolicismo do século 21 é, cada vez mais, africano.

Os fatores que nos ajudam a entender o crescimento do catolicismo na África envolvem demografia e evangelização. O continente registra as taxas de natalidade mais altas do planeta, com populações jovens e em rápida expansão, aumentando o número de católicos batizados ano após ano.

Paralelamente, o século 20 testemunhou conversões massivas ao cristianismo na África subsaariana, especialmente durante e após o período colonial, criando uma base sólida para a contínua expansão religiosa. Ou seja, o catolicismo africano avança tanto pelo aumento natural da população quanto pela evangelização de novas comunidades.

Para ler as duas publicações estatísticas da Igreja Católica, tive que encomendar os livros diretamente de Roma. Ao lê-los, no entanto, o que ficou claro é que a força demográfica, a vitalidade evangelizadora e o florescimento das vocações no continente africano transformaram a África no novo coração pulsante da Igreja Católica.

Enquanto muita gente ainda pensa a Igreja em tons renascentistas, com sotaque italiano e cheiro de incenso europeu, o catolicismo avança com ritmo e expressões africanos. As consequências, num futuro próximo, podem ser profundas: uma Igreja menos eurocêntrica, mais conectada às realidades do Sul Global e —não seria exagero imaginar— liderada por um papa africano.

 

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