Jornalista é incluído em grupo ultrassecreto de governo Trump e descobre planos de guerra

Publicada em 

26 de março de 2025

às

08h50

Jeffrey Goldberg foi adicionado por acidente e revelou descobertas em reportagem nesta segunda-feira (24); Conselho de Segurança Nacional confirmou que mensagens são verdadeiras

Mensagens ultrassecretas que revelaram planos de guerra dos Estados Unidos contra os rebeldes Houthis, no Iêmen, foram divulgadas em uma matéria da revista americana “The Atlantic” nesta segunda-feira (24). O motivo de como as mensagens foram obtidas é curioso: Jeffrey Goldberg, editor-chefe da revista, foi adicionado ao grupo de conversas do governo Trump “sem querer”. As informações são do g1.

Quando foi adicionado ao grupo, Goldberg não conseguia acreditar que estava recebendo informações de figuras do alto escalão do governo, que incluíam o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth e até o vice-presidente, JD Vance.

“Eu tinha várias dúvidas sobre se esse grupo era real”, escreveu na reportagem publicada na “Atlantic”.

O jornalista confirmou a veracidade das mensagens após o início dos ataques lançados de porta-aviões americanos sobre alvos Houthis, no dia 15 de março.

Quando tudo veio à tona, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, vinculado à Casa Branca, confirmou que “parece ser uma troca de mensagens verdadeira” e que está revisando os próprios protocolos para saber como o jornalista foi adicionado ao grupo.

Com a repercussão, o jornal “The New York Times” disse que o episódio foi “uma falha extraordinária” de segurança.

Quando tudo começou?

O aplicativo utilizado para a troca de mensagens tem criptografia de ponta a ponta, e geralmente é utilizado por pessoas que buscam privacidade. Ainda assim, o jornalista acreditava que a Casa Branca usaria um canal mais seguro para compartilhar informações sensíveis.

Goldberg desconfiou da inclusão no grupo de mensagens também por conta da relação difícil entre o governo Trump e jornalistas da imprensa tradicional, que não faz parte do grupo de militantes que defende o presidente abertamente.

“Eu não conseguia acreditar que a liderança da segurança nacional dos Estados Unidos iria comunicar no Signal sobre planos de guerra iminentes. Eu também não conseguia acreditar que o conselheiro de segurança nacional do presidente seria tão imprudente a ponto de incluir o editor-chefe do ‘The Atlantic’ em tais discussões com altos funcionários dos EUA, até e incluindo o vice-presidente”, escreveu o jornalista na matéria.

Assuntos sensíveis e plano de bombardeio

A partir do dia 14 de março, JD Vance e Pete Hegseth começaram a discutir assuntos sensíveis, relatou Goldberg. O principal era um bombardeio ao território do Iêmen — de onde os rebeldes Houthis têm lançado ataques para bloquear rotas marítimas no Mar Vermelho, causando prejuízos ao porto israelense de Eliat.

Os Houthis são aliados do Irã e do grupo terrorista Hamas. Eles têm lançado bombardeios contra Israel desde o início da guerra entre os dois, em outubro de 2023.

“Eu apenas odeio salvar a Europa de novo”, escreveu JD Vance, vice-presidente dos EUA, em certo momento. O continente europeu, para o governo Trump, se beneficia das campanhas militares dos EUA no estrangeiro e não oferece contrapartidas suficientes a Washington.

“Eu compartilho totalmente do seu desprezo pelos aproveitadores europeus. É PATÉTICO”, concorda Hegseth, secretário de Defesa.

No dia 15 de março, o secretário publicou no grupo várias informações sobre alvos e detalhes operacionais sobre ataques aos Houthis. Os recados, no entanto, não foram reproduzidas na matéria de Goldberg porque “as informações contidas neles, se tivessem sido lidas por um adversário dos Estados Unidos, poderiam ter colocado em risco militares e pessoal de inteligência americanos, particularmente no Oriente Médio”.

Como jornalista verificou a veracidade das mensagens

Foi na tarde do dia 15 de março que Goldberg teve certeza que as mensagens vinham, de fato, do primeiro escalão do governo Trump. No dia, ele entrou no X, antigo Twitter, e foi em busca do que estava sendo comentado sobre o Iêmen. Bombardeios estavam sendo reportados na capital, Sanaa, no mesmo horário em que as mensagens de Hegseth já haviam confirmado que seriam os bombardeios.

O jornalista conseguiu a confirmação de que o grupo era real dias depois, quando questionou o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional.

“A troca de mensagens que foi relatada parece ser autêntica, e estamos revisando como um número inadvertido foi adicionado ao grupo”, disse o porta-voz, Brian Hughes, em nota. “O tópico é uma demonstração da coordenação política profunda e ponderada entre autoridades sêniores. O sucesso contínuo da operação contra os Houthis demonstra que não houve ameaças aos nossos militares ou à nossa segurança nacional.”

Hughes apontou ainda que o aplicativo Signal não é um canal autorizado pelo governo para o compartilhamento de informações sigilosas, e que o Executivo americano tem sistemas próprios exclusivos para esse propósito.

Na reportagem da revista norte-americana, o jornalista pontuou que Michael Waltz e os integrantes do grupo podem ter violado várias leis, entre elas a Lei de Espionagem de 1917, que pune as pessoas que colocam em risco as relações exteriores e informações sensíveis à segurança dos EUA.

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