Nós precisamos conversar sobre o Bizarrus

Por: Edson Lustosa | 6 de abril de 2026

Nós precisamos conversar sobre o Bizarrus
A receita do engajamento palatável, sem gosto de óleo de fígado de bacalhau

 

Edson Lustosa

 

Ir ao teatro tem se tornado tarefa difícil. O tal do “engajamento social” das artes cênicas tem dado aos espetáculos um gosto de remédio que muito faz lembrar quando uma criança é submetida ao consumo de um remédio para se tornar mais forte, ou mais imune, mas por mera intuição de algum adulto bem-intencionado, sem dúvida; mas num simulacro de ato médico absolutamente desprovido de mínimo exame clínico, sem diagnóstico e com posologia – quando muito – de bula.

Não pelo acúmulo de frustrações (quando no Rio ou São Paulo vou ao teatro diariamente), mas por pura falta de oportunidade e de agenda, nestas três décadas apenas li notícias, ouvi e vi falarem sobre o espetáculo teatral Bizarrus. Nessa quinta-feira santa tive enfim a oportunidade. Vou dizer logo o que achei antes que algum ideopata(*) abandone a leitura neste segundo parágrafo, se já não o fez no primeiro, achando que vou falar mal: o Bizarrus é a reconciliação do propósito com o meio na montagem teatral.

Entendo que seja a dramaturgia o único estilo literário em que o autor escreve em caráter intrinsecamente teleológico (**), visto que a própria ação de escrever carrega em si um objetivo, ou no mínimo uma pretensão que lhe sirva de estímulo produtivo, não de que meramente o texto seja lido, mas de “aconteça”! De que se transubstancie no evento que o autor idealizou, com o concurso de, no mínimo, no caso do teatro, um ator. E melhor se, além do ator e outros atores, um corpo técnico e um produtor.

Charles Peirce, embora não tenha falado literalmente que “tudo é texto”, na sua teoria da semiose ilimitada sugere que um signo remete a outro, compondo uma rede de interpretações que tende ao infinito, sobre a qual se assenta a ideia de que o mundo cultural moderno deve ser interpretado como um vasto sistema de signos. Eu, em minha pequenez filosófica, vislumbro na parede da caverna dramatúrgica o binômio luz e sombra. O texto é a luz. As sombras, o extrato bidimensional dos elementos que percorre.

E assim o espetáculo acontece, desenhado por produção, direção, montagem, atuação e… interação. Não se fala aqui, no caso do Bizarrus, daquela interação formal, aquela receitinha de stand up que por vezes beira o constrangimento em sua pior forma, retroalimentado por outro constrangimento: o de não ser capaz de transformar angústia em riso. Nem tampouco a interatividade recorrente em experimentalismos neoposcontemporâneos. O Bizarrus propicia uma interatividade internalizada: o espectador é cocriador.

O que se leva para casa depois de se assistir ao espetáculo Bizarrus não é uma narrativa contada ou cantada, mas uma construção mental própria, estruturada na empatia, extraída do fundo de nossa consciência ancestral de que somos macacos despidos de pelo e caminhando pela estrada que conduz a um futuro inexorável, mas ávidos por nos embrenharmos por veredas nas florestas que nos ladeiam, a buscar as experiências de que precisamos para efetivamente evoluirmos em nossas consciências e nos despojarmos do ego.

E onde está a grandeza do espetáculo Bizarrus? Está na singeleza. Na concretização do aforismo taoísta de que a energia sutil é a que domina. É uma peça que não conduz, mas convida; que não aponta com o dedo, mas revela na íris a imagem do que alcança com o próprio olhar; que não levanta temas, mas permite que se ergam por si ao patamar da percepção mais sutil. Tem engajamento? Não tem, faz; mas com a receita do engajamento palatável, sem gosto de óleo de fígado de bacalhau.

 

(*) Ideopata, s. m., do grego ‘idein’ (“ver”, referindo-se a um protótipo visualizado) + ‘pathos’ (sofrimento, comumente associado a doença), pessoa que, em face da presunção de validade do discurso de proposições políticas falsamente voltadas a construção de soluções para os problemas do ser humano e da humanidade, mas em verdade construídas para a conquista ou manutenção de poder de grupos que prestigiam o nicho social ou cultural de quem as profere, apresenta sinais de redução da capacidade cognitiva associada, nos casos mais graves, ao comprometimento da disposição perceptiva presente no homem médio.

Nota do autor: verbete que eu mesmo fiz, ao meu bel-prazer, para atender à demanda conceitual dos tempos atuais.

 

(**) Teleologia, s. f., é o estudo filosófico ou doutrina que explica seres, fenômenos e ações com base em suas finalidades, propósitos ou objetivos, em vez de apenas suas causas materiais. Originada do grego ‘telos’ (fim) e ‘logos’ (estudo), postula que os eventos não são aleatórios, mas direcionados a um fim.

Nota do autor: esse não é meu, é da IA.

 

Edson Lustosa é jornalista e dramaturgo (ganhador do Prêmio Funarte de Dramaturgia de 2018 – Teatro Adulto – Região Norte)

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